Pornotopia e Poder: o Caso Epstein sob a lente crítica de Paul B. Preciado

Parte do mundo virou de cabeça para baixo com a liberação dos recentes documentos referentes ao caso Jeffrey Epstein, um financista norte-americano supostamente morto em 2019 que acumula contra si milhões de acusações de crimes gravíssimos contra a vida e a dignidade da pessoa humana.

Os documentos tornados públicos em 2025 e 2026 pelo DOJ (Departamento de Justiça do Governo Estadunidense) faziam parte da campanha de governo de Trump, que, após eleito, relutou em liberar os documentos. Hoje, já sabemos a razão: ele aparece em vídeos e trocas de e-mails com Epstein, demonstrando uma estreita relação com o condenado por pedofilia, estupros, tráfico sexual e acusado de assassinato, dentre outros crimes.

Há alguns anos, meninas e algumas mulheres denunciaram a rede criminosa comandada por Jeffrey e sua esposa Maxwell; contudo, os casos eram abafados, denunciantes sumiam misteriosamente ou apareciam mortas.

Em 2015, a advogada Virginia Giuffre denunciou a rede de tráfico sexual de Epstein e moveu um processo contra Ghislaine Maxwell (parceira de Epstein). Os documentos sobre o caso estavam sob sigilo; contudo, mais de 200 mulheres formalizaram denúncias contra o casal Epstein, o que levou a juíza federal Loretta Preska a autorizar a quebra dos sigilos impostos sobre os documentos.

Ao tornar recentemente pública parte dos documentos sobre a teia de relações perigosas entre as elites financistas, culturais e políticas estadunidenses e mundiais, as informações neles contidas são de embrulhar o estômago e nos fazer pensar que a civilidade e a humanidade entre essas pessoas nunca existiram.

Os documentos revelaram que homens brancos no poder abusavam sexualmente de crianças e adolescentes, meninos e meninas, faziam experimentos e há denúncia de mortes de bebês e de carne humana para consumo.

Epstein seria o grande mediador entre as elites transnacionais e suas vítimas. Ao que tudo indica, Epstein, que era pobre e tornou-se rico da noite para o dia, percebeu um padrão amoral e antiético nos seus clientes e passou a ofertar conselhos sobre o mundo financeiro. Para atraí-los, lhes dava “mimos” — neste caso, vidas humanas e territórios —, o que rapidamente tornou-se um padrão entre as elites.

Epstein montou uma rede pelo mundo; inclusive há citações nos documentos, como foi amplamente divulgado pela mídia nacional, de que ele veio ao Brasil e enviou agentes para recrutar crianças e adolescentes. Aparentemente, concentrou-se na região de Natal, no Rio Grande do Norte, cidade e estado que aparecem nos documentos.

Muitos especialistas que vêm comentando o caso “Epstein” têm classificado Jeffrey como monstro, ou pontuando o caso Epstein no singular, ou simplesmente como a ação de um único indivíduo. Discordo. Epstein não é o homem, é uma ideia que pode ser traduzida e materializada na sua ilha “Little Saint James”, comprada por ele em 1998 e considerada o lugar predatório onde ele levava suas vítimas para serem servidas a políticos, artistas e grandes empresários. Apareceram nomes como o do ex-presidente e atual presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton e Donald Trump; o último, acusado de abusar sexualmente de uma adolescente de 13 anos de idade, o que ele nega. Bill Gates, conhecido como um grande filantropo e pai de família, aparece em algumas citações em exploração sexual, que inclusive lhe teria rendido uma DST e colocado fim ao seu casamento. Há relatos de que Gates e Epstein conversaram e fizeram uma simulação de uma pandemia lá em 2017, sobre o que poderiam ganhar financeiramente com o caos. Em 2020, aconteceu a pandemia da Covid-19, e documentos revelaram que Bill Gates investiu milhões na tecnologia de mRNA, necessária para o desenvolvimento das vacinas contra a Covid. Essas informações levantam grandes suspeitas de que essas pessoas provavelmente tenham programado a pandemia para lucrar com ela. Bill Gates veio a público se desculpar e disse estar arrependido de ter se relacionado com Epstein, como se o morto fosse o único culpado, tentando ignorar que os atos criminosos eram práticas de um grupo.

Epstein, pelo modus operandi divulgado nesta última leva de documentos, pegava recibos de seus convidados. O recibo seria uma foto tirada por ele e enviada automaticamente para seu e-mail pessoal. Foi o que ocorreu com um jantar promovido por ele em 2015, no qual estavam presentes Mark Zuckerberg e Elon Musk, donos de empresas de tecnologia que moldaram a política e o modo de vida das pessoas na última década.

A “foto recibo” de Epstein era apenas vaidade para mostrar sua boa relação com esses novos bilionários? Ou revela um método, algo que diz para quem está fora do grupo: “eu tenho boas relações e posso te conectar”. O self-email (foto e-mail) poderia significar um ativo, uma moeda de troca.

Colocando uma lupa sobre o “Caso Epstein”, não tem como traçar um paralelo entre o controle dos corpos praticado por Hefner e as dinâmicas de poder à luz do conceito de Pornotopia construído por Paul Preciado e as recentes, mas não novas, práticas de controle e exploração sexual praticadas pela teia de relações de Epstein.

Em que pese o contexto entre Hefner e Epstein seja diferente, o primeiro cria um mundo vigiado onde o prazer e o poder andam de mãos dadas. Em tese, as “Coelhinhas” que Hefner oferecia aos magnatas, aos políticos e artistas seriam mulheres adultas que davam o seu consentimento às práticas sexuais que giravam em torno da mansão Playboy, o que não acontecia na Ilha de Epstein. Neste caso, crianças eram sequestradas e levadas para satisfazerem a lascívia de homens e mulheres que ocupam cargos de poder pelo mundo; essas crianças e adolescentes eram vítimas de estupros.

Contudo, quando olhamos para os dois casos, podemos verificar a mesma premissa e o mesmo padrão: corpos vulnerabilizados para servir como objeto de manejo da elite.

Se na casa de Hefner o Pornográfico (Indústria Semiótico-Digital) é o controle através da imagem, do desejo e da estimulação constante via telas — o “pornô” aqui não é apenas o sexo explícito, mas a exposição total e a excitação como motor de consumo como forma de controle dos corpos e da sociedade que passa a se moldar a partir dessa ótica —, em Epstein há uma quebra do padrão, em que pese a semelhança no controle de corpos e exercício de poder, uma vez que ele utiliza corpos infantis e alimenta uma rede de pedofilia.

A economia do poder, do sequestro e da desumanização dos corpos para alimentar o capitalismo. Há uma pedagogia posta e uma arquitetura muito bem desenhada para manutenção dessa atual gestão do mundo, onde homens vampiros não sugam apenas a força de trabalho; eles se alimentam da violência contra vidas inocentes.

Preciado, citando Deleuze e Guattari, pontua que a “pornotopia Playboy” seria uma arquitetura menor, um projeto através do qual a Playboy realizará um mundo dentro de outro mundo.

Assim como em 1962 Hugh Hefner se autonomeou o arquiteto de um novo mundo após o fim da Segunda Guerra Mundial, utilizando o dinheiro e o controle dos corpos através do fetiche sexual, Epstein reconfigurou as dinâmicas de poder, levando os poderosos a assinarem um pacto de remodelação do mundo através da queda de governos e homens pervertidos, que, ao serem filmados e fotografados estuprando crianças ou adolescentes, não teriam outra alternativa a não ser ceder a determinado poder, seja ele qual for.

ARQUITETURA E PEDAGOGIA DO PODER EM HUGH HEFNER

Conceito: Mansão Playboy (Hefner)
Arquitetura: Urbana, conectada via TV/Revista.
Tecnologia: Câmeras, telefones e transmissões.
Status Jurídico: Desafio aos valores conservadores (legal).
O “Corpo”: Objeto de desejo estético e midiático.

ARQUITETURA E PEDAGOGIA DO PODER EM JEFFREY EPSTEIN

Conceito: Ilha de Little St. James (Epstein)
Arquitetura: Isolada, acessível apenas por jato privado.
Tecnologia: Vigilância oculta e bases de dados de chantagem.
Status Jurídico: Operação em um “vácuo” legal (criminal).
O “Corpo”: Capital político e moeda de troca sexual.

CONCLUSÃO

A antecipação de Preciado reside no fato de que o poder moderno não se exerce mais apenas em praça pública, mas no controle absoluto de espaços privados hiperconectados. O escândalo Epstein é a face mais obscura e criminosa dessa “pornotopia”, onde a tecnologia e a arquitetura de isolamento permitem que o abuso ocorra de forma sistêmica, protegida pela invisibilidade e pela riqueza. Paul B. Preciado e sua obra “Pornotopia” são vitais para a compreensão do “Caso Jeffrey Epstein”.

Colagem da artista franco-venezuelana Laureline Delahousse.
Colagem da artista franco-venezuelana Laureline Delahousse.

Sara Araújo (Salvador, Bahia) tem 46 anos, é Mestranda em Ciências Sociais, bacharel em Direito, licenciada em Ciências Sociais, pós-graduanda em História da África e da Diáspora Atlântica, Analista Jurídica da Defensoria Pública do Estado do Paraná. É palestrante, sommelière de cervejas, ganhadora  do Prêmio Zumbi dos Palmares (2017) pela Câmara de Vereadores de Bauru (SP), integrante da Comissão Étnico Racial Lélia Gonzáles da Associação dos servidores/as da Defensoria Pública do Estado do Paraná, colaboradora do NUDEM – Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres, do GT de Racialidae da Defensoria Pública do Paraná, do GT de Diversidade da ABRACERVA e integrante do coletivo Expressão Poética desde 1999. Coautora das seguintes obras: Poetas Virtuais (2000) Poêmico – Poesia em tempos pandêmicos (2021) Mãe Pretas – Maternidade Solo e Dororidade (2021) Expressinho Poético (2022) e Quando o Racismo bate à porta (2023). É colunista da Revista Philos e você pode encontrar-la nos perfis @araujojsara e @literaturanobar no instagram.

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Publicado por:Philos

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